Violeta Ácida

Fragmentos de Vida

Agosto 11, 2008 · 2 Comentários

Acompanhar a movimentação das ruas é um hábito que cultivo desde muito cedo. Agora que o tempo já é tão longo que os anos não fazem mais diferença, passo as tardes a desfrutar do convívio com os anônimos.  

Talvez esse não seja um hábito muito produtivo, mas me contento em permanecer sentado em um banco de praça, a observar o caminhar das pessoas. Descobre-se peculiaridades da raça humana e ri-se muito também.

Vejo a frente um rapaz novo, sua idade deve girar em torno dos 19, 20 anos. Anda tranquilamente, com o olhar perdido. Esboça um sorriso tímido e carrega consigo várias pastas e livros debaixo do braço. Logo ele se vai e o perco de vista em meio à multidão.

Tenho recordações de mim mesmo quando tinha essa idade ao ver esse garoto. Uma expressão sonhadora de quem ainda acredita nas coisas. A juventude não está tão perdida afinal.

Mais adiante avisto uma senhora que anda com passos pequenos e pausados. Carrega uma expressão preocupada, em um sofrimento silencioso e solitário. Que decepções e mágoas essa mulher deve carregar? Pelo que vejo, ainda há vida pela frente e palavras doces a espalhar.

Um homem toma a frente da tímida senhora e não a vejo mais. Este, por sua vez, vem rápido, com seu paletó e gravata a padronizá-lo. Com passos precisos e velozes, ele caminha cortando todos a sua frente. Seu olhar não se detém em nada. É a pressa do mundo globalizado que rouba a vida de todos.

De repente, uma cena me chama a atenção. Um menino caminha saltitante segurando na mão de uma mulher que suponho ser sua mãe. Ele anda despreocupado quando sua vista se depara com um vendedor de algodão-doce.

No mesmo instante, sua atenção se volta toda para isso e os pedidos a mãe para que compre o bendito doce não cessam. A mulher, no entanto, não cede, e continua seu caminhar sem titubear.

O choro então irrompe e a mulher olha em volta constrangida, mas firme na sua decisão. Os pedidos e as lamentações se tornam mais insistentes e, num rompante, a mãe volta na direção do vendedor e traz consigo o elemento apaziguador.

A ação do garoto não é outra senão sorrir, mesmo em meio às lágrimas. Um sorriso puro da mais sincera alegria. Algo tão mágico que a mãe até então contrariada sorri também e afaga a cabeça do menino. Após isso, me levanto e sigo o caminho de casa. Afinal, tudo que precisava ver estava ali.

 

 

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