Violeta Ácida

Fases

Julho 30, 2008 · 2 Comentários

                     Todo dia era a mesma coisa. Meu irmão mais novo chegava em casa primeiro da escola, por volta das onze horas. Logo em seguida eu, assim que o almoço era servido. Só ao entardecer o mais velho da turma chegava, esse do trabalho.

Henrique, o caçula, com interesses e ações típicas de uma criança. Eu, Gustavo, iniciando a turbulenta fase da adolescência e César, já formado na escola, começando a criar responsabilidades de um adulto, mas sem muitas expectativas. Formávamos um trio e tanto. Aprontávamos várias juntos. Mas, em frente a televisão, assumíamos outra postura entre nós.

Quando Henrique aportava em casa a primeira coisa que fazia era ligar a televisão. Eu ao chegar não podia fazer a mesma coisa, porque nossa mãe estava servindo o almoço e para ela esse momento sempre foi sagrado. Ninguém podia nem pensar em fazer qualquer outra coisa, porque isso era proibido terminantemente.

Henrique e eu tentávamos comer o mais rápido possível, pois sabíamos que assim que o outro terminasse, iria correr para frente da TV. Eu sempre passava na frente. Meu irmão começava a chorar, apelando para o coração mole da nossa mãe. Ela deixava ele ficar em frente ao aparelho, mas assistindo a uns desenhos chatos, que pareciam feitos para retardados. Ela dizia que eram educativos. Eu ria a beça por dentro nessas horas.

O caçula sempre se cansava, pois nossa mãe sempre ficava de olho nele. Nem podia mudar de canal. Assim que esse momento chegava eu atacava e assumia o controle do aparelho. Meu irmão ia para o quintal brincar. Eu ficava lá a tarde toda assistindo meus programas prediletos. Esportes, filmes… . Nem precisava ter algo de interessante para ver, só de estar ali em frente a televisão já me sentia satisfeito.

Seis horas. Assim que César pisava o pé em casa eu sabia que meu reinado havia terminado. Geralmente, ele chegava de mal humor e muito cansado. Seu emprego era do outro lado da cidade. Esperava ele ir tomar banho e comer, aí eu liberava a TV e me trancava no meu quarto. Esta típica síndrome da adolescência me atacou também.

Hoje vejo situação semelhante com meus dois filhos. Mas não em frente a TV e sim no computador. O esquema não é exatamente o mesmo, até porque as diferenças em cada aparelho impõem ações diversas também, mas a disputa pela dominação dos mesmos se assemelha muito. Minha esposa está á espera de mais um filho. Pois é, pelo menos para mim, parece que os tempos não mudaram.

 

 

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